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Lucas Santtana canta em 8 idiomas no álbum ‘Brasiliano’


Lucas Santtana escolheu cumprir uma missão para celebrar os 25 anos de carreira: reconhecer a riqueza da língua brasileira. Nesta sexta-feira (6), então, o cantor, compositor e produtor lança o álbum “Brasiliano”, cantado em oito idiomas: brasiliano (português do Brasil), tupi-guarani, occitano, francês, italiano, espanhol, galego e crioulo da Guiné-Bissau (kriol).

O 11º álbum de estúdio do baiano traz uma reflexão sobre pertencimento e apagamento cultural. Ao mesmo tempo que há dimensão política e histórica, criando um debate sobre língua e poder, há também poesia e transmissão como herança.

São 11 faixas que atravessam a jornada da língua do país, passando pelo latim vulgar, na Itália, e pelas influências do tupi-guarani e das línguas africanas no Brasil.

O prefácio do disco é assinado por Caetano Galindo e o posfácio por Sérgio Rodrigues.

Confira faixa a faixa de ‘Brasiliano’, por Lucas Santtana

  • 1. “A História da Nossa Língua” feat. Gilberto Gil
    (Lucas Santtana)

Abro o álbum com uma canção de orquestração épica para contar a trajetória da língua que falamos. Imagino a língua brasileira como um ser feminino que nasce do latim vulgar, na região do Lácio, e atravessa o oceano até encontrar o tupi-guarani no Brasil. Nessa viagem, ela se transforma ao cruzar com outras línguas que moldaram o Brasiliano, como o occitano, o celta, o galego e o moçárabe. A canção costura palavras indígenas presentes no nosso cotidiano e culmina na pergunta: “Que língua é essa? Essa língua é brasileira!”.

A faixa foi inspirada no livro “Latim em Pó”, de Caetano Galindo, e conta com a participação de Gilberto Gil, hoje membro da Academia Brasileira de Letras.

  • 2. “Línguas Gerais” feat. Tainara Takua e Oxmo Puccino
    (Lucas Santtana / Oxmo Puccino)

A faixa começa com a voz da jovem cantora indígena Tainara Takua, cantando “Beija-flor”, composição sua em tupi-guarani. Essa língua foi a base das línguas gerais, faladas majoritariamente nos dois primeiros séculos e meio do Brasil.

A canção também traz o rapper francês Oxmo Puccino, refletindo sobre colonização e decolonização. Ao mencionar a frase “ê monsieur! on parle l’afriquée!”, a música critica a confusão racista e xenófoba promovida por Éric Zemmour ao estigmatizar a fala de filhos de imigrantes das ex-colônias francesas, ampliando o debate sobre língua, poder e apagamento cultural.

  • 3. “Liga” feat. Cocanha
    (Lucas Santtana / Caroline Dufau e Lila Fraysse)

Essa canção fala da importância de escutar a própria língua para reconhecer o seu povo. Se a cultura define quem somos, a língua é sua base: é ela que nomeia o mundo.

Cocanha é um duo feminino que canta em occitano e tem sua pesquisa artística voltada à preservação dessa língua ameaçada. O occitano influenciou o espanhol e o galego a partir do século XIII, por meio dos trovadores medievais, e essas transformações chegaram ao português e, mais tarde, ao Brasiliano.

  • 4. “Strati di Tempo” feat. Dimartino
    (Lucas Santtana)

Aqui penso a língua como herança familiar, transmitida de geração em geração por avós, mães e filhas, em camadas que se acumulam ao longo do tempo. Cada geração modifica sutilmente a língua, refletindo mudanças culturais e comportamentais. Ainda assim, a língua materna permanece como núcleo íntimo de memória e identidade.

A faixa conta com a participação de Dimartino.

  • 5. “Dans Le Sud” feat. Flavia Coelho
    (Lucas Santtana / Flávia Coelho)

Minha primeira parceria com Flavia Coelho é uma canção solar, praieira, inspirada em Henri Salvador. Fala de um flerte entre quem vive no Mediterrâneo e quem vem do Norte, um encontro leve, atravessado pelo desejo, pelo clima e pela música.

  • 6. “Cuando Mi Lengua” feat. Maria Lado
    (Lucas Santtana)

Essa canção aborda a língua de forma física e carnal. A língua como lugar máximo de conexão entre duas pessoas ou como fricção entre dois idiomas. No refrão, imagino duas línguas que se entrelaçam em um beijo, como serpentes ou como a dupla hélice do DNA.

A faixa traz a poeta galega Maria Lado, que recita o poema “Paxaros e Maceiras”. Apesar de ter sido proibida pela Igreja por quatro séculos, a língua galega resistiu e se tornou matriz do português, influenciando profundamente a cultura do Nordeste brasileiro.

  • 7. “Ver Meu Povo se Abraçar” feat. Chico César
    (Lucas Santtana / Chico César)

Essa parceria com Chico César é uma homenagem às festas de São João, que ficaram suspensas durante dois anos de pandemia. A canção celebra o reencontro, o abraço e a coletividade.

A festa tem origem na Occitânia medieval, ligada ao solstício de verão e à colheita. Reprimida inicialmente pela Igreja, acabou sendo incorporada ao calendário cristão. Tanto lá quanto no Brasil permanecem os mesmos símbolos: fogueiras, adornos, sanfona e dança.

  • 8. “Eu Ainda te Amo” feat. Rachel Reis
    (Lucas Santtana / Fábio Pinczowski)

Uma canção de amor sobre ausência e perda. Fala de alguém que só entende o valor da relação depois que ela acaba. Rachel Reis, uma das vozes mais singulares da nova música brasileira, traz à faixa sua mistura de referências tradicionais com uma timbragem indie-pop muito própria.

  • 9. “Battre des Ailes” feat. Piers Faccini
    (Lucas Santtana / Piers Faccini)

Piers Faccini é um compositor que transita entre o folk anglo-saxão e as culturas musicais do Mediterrâneo, da Ásia à África. Essa canção nasceu de uma conversa nossa no sul da França, durante o verão.

A partir daí, transformamos em poesia algumas teorias sobre o som intermitente das cigarras, que anunciam a chegada da estação na região.

  • 10. “Que Seja um Reggae” feat. Os Paralamas do Sucesso
    (Lucas Santtana)

Aqui falo de um amor que não chega de forma avassaladora, mas se instala aos poucos, silencioso e constante, revelando sua força com o tempo.

A participação de Os Paralamas do Sucesso é essencial. Eles mostraram que o rock podia dialogar com ritmos brasileiros, africanos e latinos. Ensinaram a toda uma geração que rock é uma forma de tocar, não um limite estético. Isso foi libertador e profundamente decolonial.

  • 11. “Independência” feat. Karyna Gomes
    (Lucas Santtana / Karyna Gomes)

Essa canção afirma a necessidade de reconhecer nossa independência linguística, chamando a língua que falamos de Brasiliano e não de “português do Brasil”. Muitos linguistas já reconhecem que se trata de outra língua, com estrutura, ritmo e identidade próprias.

A faixa conta com a participação de Karyna Gomes, cantora da Guiné-Bissau e defensora da autonomia linguística em seu país. Ela canta em crioulo, ampliando o diálogo entre línguas que nasceram da resistência.

Ouça ‘Brasiliano’, de Lucas Santtana





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