Vencedor de Globos de Ouro e forte concorrente do Oscar, Hamnet conta a história por trás de uma das obras mais famosas de William Shakespeare.
Em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, um dos mais importantes escritores do cânone ocidental William Shakespeare (Paul Mescal) vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes Shakespeare (Jessie Buckley) quando o casal perde seu filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI.
Hamnet (Jacobi Jupe) era o nome do menino e, nessa história ficcional sobre a vida doméstica de Shakespeare, Agnes é a narradora e o ponto de vista fundamental da narrativa, demonstrando o luto que acompanha o fim precoce da vida do seu herdeiro. A trama rejeita a faceta inabalável e intocável de um gênio William Shakespeare, mas apresenta um artista que era influenciado, acima de tudo, pela sua vida diária.
Explorando os temas da perda e da morte, Hamnet acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.
Universal Pictures International
Entre a tragédia pessoal e o nascimento de Hamlet
O novo filme de Chloé Zhao, após sua incursão no Universo Cinematográfico da Marvel, é baseado em um romance de Maggie O’Farrell, publicado em 2020 e adaptado para o teatro. Mas o verdadeiro ponto de partida desta história remonta a muito antes, especificamente a agosto de 1596, quando William Shakespeare e sua esposa, Anne Hathaway, enfrentaram a morte de seu filho de 11 anos, Hamnet, que se acreditava ter sucumbido à peste bubônica. Alguns anos depois, o Bardo pegou uma peça já existente sobre um personagem chamado Hamlet e criou sua própria versão, chegando a aparecer no palco nas primeiras apresentações.
Daí a pensar que Hamlet, com seu filho fantasma e sua história de vingança, foi escrito por William Shakespeare em reação à morte de seu Hamnet, é apenas um pequeno passo… um passo que nunca foi oficialmente dado, apesar de elementos na peça tenderem a confirmar essa teoria, que Maggie O’Farrell aproveitou, antes de Chloé Zhao seguir o exemplo, para um filme produzido por Steven Spielberg e Sam Mendes que o diretor, vencedor do Oscar em 2021 por Nomadland, quase não realizou. Corre o boato até de que ela inicialmente recusou o projeto.

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“Tive que esperar que as respostas se apresentassem para mim”
“Tudo isso estava além da minha compreensão”, conta Chloé Zhao, rindo. “Não é que eu tenha recusado o projeto, mas, para ser sincera, eu estava dirigindo pelo deserto do Novo México – onde o sinal de celular é péssimo – quando a Amblim [produtora de Spielberg] me ligou. Não havia espaço para uma conversa real. Tudo o que eu sabia era que se tratava de Shakespeare e sua esposa, da perda do filho deles e de um filme de época. Minha reação imediata foi perguntar: ‘Por que eu?'”
A diretora admite que, naquele momento, não conseguia entender o que a tornava a escolha ideal para comandar o projeto. Sem conseguir ouvir claramente as explicações por causa da ligação instável, respondeu que não se via fazendo o filme.
A perspectiva mudou completamente, no entanto, após conhecer Paul Mescal e Jessie Buckley e, sobretudo, depois de ler o romance de Maggie O’Farrell. “Eu não recusei – eu estava confusa. Precisei de tempo para que as respostas surgissem”, conclui.
O título do livro de O’Farrell e do filme de Zhao, portanto, não contém um erro, assim como não há equívoco na forma como a esposa do dramaturgo é nomeada: Agnes e Anne aparecem em registros históricos distintos – inclusive no testamento de seu pai – referindo-se à mesma pessoa.
Independentemente da grafia, é ela quem ocupa o centro emocional do longa, que está longe de ser um Shakespeare Apaixonado. Aqui, as referências a Hamlet não são ornamentos, mas ferramentas narrativas que ajudam a compreender motivações, silêncios e feridas ainda abertas.
Estar ou não estar de luto
Ao combinar a relação visceral de Chloé Zhao com a natureza a uma abordagem de emoções em estado bruto, potencializada pelo trabalho sensível de seus atores, Hamnet dedica apenas uma fração de seu tempo à escrita e à encenação de Hamlet.
Em vez disso, o filme prefere se concentrar no nascimento do amor entre seus personagens e nas marcas deixadas pela tragédia que os atravessa. Essa escolha narrativa amplia a força do drama e confere à obra um caráter profundamente universal.
Sob a aparência de um relato histórico e teatral, Hamnet se revela, antes de tudo, um filme sobre o luto: sua persistência, suas transformações e, sobretudo, o poder catártico da arte diante da perda.

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À medida que o tempo avança, o longa se impõe com crescente delicadeza e intensidade, culminando em uma cena final genuinamente comovente – muito em função do gesto derradeiro de Agnes, cuja interpretação reúne todos os atributos de uma forte candidata a vencedora do Oscar de Melhor Atriz, principalmente após já ter sido reconhecida com o Globo de Ouro e o Critics’ Choice Award.
O ano cinematográfica mal começou, mas Hamnet já se destaca como um de seus momentos mais emocionantes. Será preciso algo verdadeiramente extraordinário para igualar – ou superar – o impacto emocional alcançado aqui, especialmente com a cerimônia do Oscar 2026 marcada para 15 de março.
Fonte: Filmes e Séries


