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Amanda Magalhães: ‘O riso é revolucionário’


O que o humor pode fazer quando a realidade parece cada vez mais absurda? Para Amanda Magalhães, rir não significa ignorar os problemas, mas encontrar uma maneira de encará-los. Em seu terceiro álbum, “Era Uma Vez o Amanhã”, lançado em agosto, a cantora e compositora transforma ironia e referências à cultura da internet em ferramentas para discutir questões que vão da obsessão por visibilidade ao avanço da inteligência artificial, passando pela automatização da vida e pelas promessas de sucesso vendidas pelo capitalismo.

A ideia aparece tanto nas músicas quanto na maneira como Amanda se relaciona com o universo digital. Em vez de tratar as redes apenas como vitrines de divulgação, ela também observa seus códigos, comportamentos e contradições.

E os chamados “memixes” — remixes musicais construídos a partir de memes e vídeos virais — que ajudaram a chamar atenção para seu trabalho via Instagram, fazem parte desse repertório: materiais que nascem do humor e da circulação acelerada de imagens, mas que também podem revelar algo sobre a sociedade.

Em seu mais recente clipe, “Eu Quero Likes”, a busca por aprovação e visibilidade ganha contornos de crítica. Mas a visão de Amanda não se resume somente a apontar os excessos das plataformas. Afinal, artistas também dependem delas para fazer com que suas músicas cheguem ao público. É nesse terreno contraditório, entre a crítica e a participação, que a cantora encontra parte da matéria-prima de “Era Uma Vez o Amanhã”.

Nesta entrevista à Billboard Brasil, Amanda Magalhães fala sobre o papel do riso em sua composição, a teatralidade, a cultura digital e a possibilidade de imaginar outros futuros.

Amanda Magalhães (Flora Negri)
Amanda Magalhães (Flora Negri)

Leia a entrevista com Amanda Magalhães

Billboard Brasil: “Era Uma Vez o Amanhã” chegou às plataformas em agosto. Agora que o álbum está circulando e já encontrou os primeiros ouvintes, como você avalia a recepção a ele? O público tem se conectado com o disco da maneira que você imaginava?

Amanda Magalhães: Sim, até de maneiras que me surpreenderam um pouco, confesso! E está sendo bastante positiva a repercussão. As mensagens que eu recebo, os comentários que vejo nas redes sociais me mostram que eu não estava louca, que existem muitos de nós com raiva, querendo reivindicar, querendo pensar juntos como chegamos até aqui e de que maneiras conseguimos mudar o nosso futuro.

É um futuro que se anuncia a partir do que a gente vê hoje de um jeito bastante preocupante, do ponto de vista da sociedade, da nossa política e das próprias estruturas de poder. Então, estou percebendo que esse discurso e essas perguntas que eu vinha me fazendo no processo de composição estão ressoando com as pessoas, chegando a gente nova que não conhecia o meu trabalho. Está sendo bem legal, obrigada!

Você lançou recentemente o clipe de “Eu Quero Likes”. A música é muito legal e tem um refrão grudento. Quem é o menininho que aparece no refrão?

Na verdade, ele é de um vídeo que achei. Não é bem um meme, mas foi um vídeo que encontrei. Eu não quis e não vou revelar a identidade porque não quero expor essa criança, mas vem de uma situação real.

Como venho trabalhando com memes na internet, acho que foi há uns dois anos que comecei a fazer essas misturas de meme com música e humor. Percebi que essa linguagem dos samples me interessa muito. Sinto que trouxe isso um pouco mais para a minha discografia, e esse é um bom exemplo.

Só que, nesse caso, é uma criança desesperada por validação externa, já tão cedo nesse lugar da espetacularização da nossa vida. Era uma coisa que eu achava que fazia muito sentido ali para a faixa, pelo impacto que isso traz. É para a gente pensar sobre que tipo de relação estamos construindo com esse ecossistema digital, com as redes sociais. Então, é uma fala sampleada de uma criança.

A música critica a necessidade de estar constantemente visível e de buscar aprovação online, mas você também construiu parte da sua relação com o público por meio das redes, especialmente com os chamados “memixes”. Como equilibrar a crítica a essa lógica com a necessidade de usar essas mesmas plataformas para divulgar seu trabalho?

Eu separo isso com uma consciência muito grande de que, primeiro: eu não tenho escolha! Eu estava trocando uma ideia com um seguidor outro dia sobre isso, sobre quando alguém vira para você e acha que para criticar o capitalismo, você precisa fazer um voto de pobreza, se colocar à margem do sistema no qual nasceu e sobre o qual não teve poder de escolha para que sua crítica seja coerente, quando na verdade acho que é justamente o contrário: você só consegue criticar aquilo que conhece.

Então, todas as críticas que faço nesse trabalho vêm muito de um lugar de alguém que vive esses territórios. Na mesma medida, com as redes sociais eu não tenho muita escolha. Se é isso que está dado para mim, é o que está apresentado e é com isso que vou jogar, seja para levar mensagens que julgo importantes, seja para me colocar como profissional diante do trabalho que faço, porque não tem jeito — é o que é, e é assim!

Agora, fazendo também uma reflexão de que as coisas não são tão “preto no branco”: as coisas são complexas. Ao mesmo tempo que existe um monte de coisa que a gente pode problematizar acerca do uso das redes sociais e de todos os fenômenos, sabemos que também é um espaço onde mobilizações políticas são articuladas hoje em dia.

A gente consegue ouvir a voz de muita gente que antes não ouvia, porque existe uma camada democrática mesmo, um aspecto de você poder ligar a câmera e falar, protestar, se expressar e por aí vai. Acho que existe sim uma ilusão de que conseguimos ter conexões reais por meio dessa ferramenta, mas acho que tem coisas positivas para nos trazer enquanto descobrimos qual é o melhor uso dela. E nesse processo, vamos criticá-la naturalmente. Acho que minha visão é por aí.

Você consegue se recusar a participar dessa lógica das redes sociais em que o músico também tem que ser produtor de conteúdo e postar sempre?

Não, eu me recuso por uma questão de saúde mental. Houve momento em que eu sentia que não podia, porque é um luxo você poder escolher não entrar na lógica de certas coisas, é um privilégio. Agora que meu trabalho está caminhando um pouco mais, consigo respeitar um pouco o meu próprio tempo interno, o que sempre quis fazer, mas antes não conseguia.

Para você viver de música no Brasil, precisa estar fazendo música nesse espaço, nessa rede social, senão você não existe enquanto trabalhador ou trabalhadora da música. É uma coisa que está fazendo sentido para mim internamente? Não. Mas consigo recusar essa realidade? Não consigo. Então, vamos lá, vamos fazer esse jogo. Durante esse período, eu me obriguei.

Não digo que foi de todo ruim; foi através das redes sociais e desse processo de me forçar a me entender ali que descobri essa história com os memes, que me trouxe muitas oportunidades e pessoas para o meu trabalho. Ali também me permiti me levar menos a sério enquanto artista. Como na internet tudo é muito efêmero, você não se coloca aquele peso de “preciso criar uma obra que se torne atemporal”. Descobri caminhos muito interessantes que aparecem para mim como artista quando me coloco nesse lugar.

Na época do lançamento, você falou sobre a vontade de explorar um lado mais irreverente e teatral da sua personalidade artística. Seus dois primeiros álbuns, “Fragma” e “Maré de Cheiro”, exploram caminhos sonoros distintos do trabalho atual. Como foi que chegou a essa nova ideia?

Eu percebi que o riso é revolucionário, conecta as pessoas e baixa a guarda delas para prestar atenção em coisas que talvez, sem o elemento cômico, elas não prestassem. E, quando decidi que faria um trabalho político, entendi que isso seria uma ferramenta muito importante. Poder me valer do humor também para falar de problemas sérios e entender que ele aproxima as pessoas desses assuntos quando você o traz. Então, sim, foi um divisor de águas completo!

Teve alguma reação ou interpretação do público que chamou sua atenção por revelar algum aspecto que você ainda não tinha considerado no seu disco? Alguma faixa ganhou um significado diferente com o passar do tempo?

Ali em “Oração ao Capital”, percebi que para algumas pessoas, estou criticando a igreja evangélica. Óbvio que me valho de rezas, expressões e coisas que a gente diz nesses espaços de fé, mas quando escrevi a música, era muito mais para criticar um estado adoecido da sociedade em geral em relação ao capitalismo, de colocar o dinheiro e o capital como o Deus de todas as coisas. Por isso a reza para o dinheiro.

As igrejas entram nesse balaio, mas não é diretamente sobre elas. Tentei usar isso como metáfora para fazer essa crítica geral a todos nós, a mim inclusive, e percebi que na interpretação de algumas pessoas, estou atacando a corrupção que rola nas igrejas, de extorquir os fiéis. Mas não era exatamente essa a minha intenção.

Sim, a questão de pagar os dízimos, esse tipo de coisa.

Isso, e a teologia da prosperidade, exatamente! É esse todo, tudo no guarda-chuva do neoliberalismo. Mas é isso, a gente não tem controle sobre a obra estar no mundo depois que sai.

O que você sente que esses elementos também mudaram seu show? Diria que sua performance ao vivo ganhou uma nova linguagem?

Mudou muito porque consegui unir as diferentes Amandas: a Amanda que atuava em cinema, separada da Amanda compositora, separada da Amanda produtora musical e criadora de conteúdo de música e humor na internet. Nesse trampo, sinto que consegui unir várias Amandas, e isso veio para o palco.

Com a teatralidade da linguagem do rap e a linguagem dos samples, pude trazer meu lado mais atriz, a produtora e a compositora, me sentindo muito mais inteira no palco. É o meu trampo mais maduro até agora. Com a Boia Fria Produções, reunimos banda, dançarinos e artistas visuais para levantar um espetáculo. É o show mais empolgante da minha carreira até aqui.

Você trabalha com produção musical, composição, atuação e criação de conteúdo para as redes. Como consegue organizar todas essas frentes?

Como atriz, trabalho com projetos pontuais que chegam com roteiros que falem comigo, já que meu foco está na música. Como letrista, é um trabalho constante de registrar ideias no gravador na rua e desenvolver.

O trabalho nas redes com memes é mais cerebral: faço uma curadoria no Instagram, organizando vídeos por pastas temáticas, como política, fé e animais fofos, para criar os mixes quando acho que faz sentido.

Como está a construção da agenda de shows para essa fase? Você pretende circular com o álbum por outras cidades e regiões do Brasil? Já existem apresentações confirmadas ou planos de ampliar a turnê?

A gente tem mais shows em negociação para o fim do mês. Para artistas independentes, focar na construção da agenda para 2027 é essencial porque as conversas em festivais começam com seis a oito meses de antecedência. E estamos lidando com as dificuldades de levar um show grandioso, com equipe maior, para viajar pelo Brasil.

Depois de lançar o terceiro álbum e começar a apresentá-lo ao público, o que vem a seguir? Você pretende continuar explorando o universo desse disco com novos videoclipes e apresentações ou já está pensando em outros projetos?

Estamos trabalhando para isso e vou divulgar tudo em breve no meu Instagram. Tivemos o lançamento da live session de “Oração ao Capital”, também saiu “A Máquina e o Homem” no YouTube e, na próxima semana, a versão acústica de “Eu Quero Likes”.

Existe meu desejo de que a faixa com o Chico, “Canção pra Te Amar no Fim do Mundo”, possa ser mais trabalhada, mas estou entendendo a temperatura do momento delicado entre o primeiro e o segundo turno. Meu foco agora, como artista e cidadã, é colaborar a favor da democracia, então não vou lançar love song nesse período (risos).

E no meio desse turbilhão político, como está sendo para você? Está tentando virar voto?

Estou conversando com a galera na rua, no Uber, com a família! Também estou com uma playlist de trechos de vídeos para tentar montar e fazer remixes, porque o memix acessa mais as pessoas e fura bolhas. Afinal, a composição também é meu canal para externalizar minhas angústias nesses momentos.

Amanda Magalhães (Flora Negri)
Amanda Magalhães (Flora Negri)

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Ouça Amanda Magalhães

 





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