A Devolver Digital anunciou que pretende abrir mão de seu status de empresa de capital aberto e voltar a operar como companhia privada. A publicadora indie, conhecida por títulos como Fall Guys, Hotline Miami e Cult of the Lamb, formalizou a proposta em sua página de relações com investidores, confirmando a intenção de sair do mercado AIM, da bolsa britânica. A decisão será submetida a votação em uma assembleia geral marcada para 8 de setembro.
A empresa havia aberto capital em novembro de 2021, período em que surfava no sucesso massivo de Fall Guys. Desde então, o valor de suas ações despencou de forma consistente. Mas a saída da bolsa não é só uma reação a um momento ruim do mercado é, também, uma declaração de princípios sobre como empresas de jogos e acionistas simplesmente não combinam.
O documento oficial da Devolver Digital detalha com precisão os pontos de atrito entre o modelo de empresa listada em bolsa e a natureza do desenvolvimento de jogos. A publicadora afirma que, como empresa de capital aberto, enfrentou “o desafio contínuo de entregar crescimento em linha com as expectativas do mercado”, o que gerou “uma desconexão de avaliação que não leva em conta a receita de longo prazo inerente ao negócio de videogames”. Em outras palavras: acionistas querem retorno rápido, e jogos não funcionam assim.

“Os cronogramas de desenvolvimento podem ser imprevisíveis e, como resultado, o desempenho financeiro pode variar significativamente entre os períodos de relatório e pode não seguir uma progressão linear”, diz o comunicado. A Devolver complementa: “O Conselho entende que essa irregularidade não tem sido facilmente compatível com as exigências do mercado de relatórios semestrais com ênfase no crescimento sequencial e previsível”.
É exatamente nisso entre a imprevisibilidade criativa dos jogos e a demanda por resultados constantes que costumam surgir as decisões mais prejudiciais da indústria: demissões em massa após lançamentos bem-sucedidos, jogos lançados incompletos para bater metas fiscais e cortes que esvaziam estúdios inteiros. A própria Devolver reconhece ter sentido essa pressão.
“Consequentemente, a empresa, por vezes, enfrentou uma pressão crescente para atender às expectativas de curto prazo do mercado, que não refletem necessariamente o potencial subjacente de criação de valor a longo prazo de seu portfólio e projetos em desenvolvimento”.
Economia e autonomia
A Devolver Digital estima uma economia de aproximadamente US$ 1,6 milhão por ano ao deixar de cumprir as obrigações regulatórias exigidas de empresas de capital aberto. A diretoria da empresa também declarou que “acredita que o preço das ações da Companhia não reflete o verdadeiro valor de mercado” e que “o mercado de ações não recompensou a Companhia” por seus resultados.
Um porta-voz da Devolver foi direto ao ponto em comentário ao portal GamesIndustry: “Ser uma empresa privada permitirá que a equipe da Devolver Digital, especialmente as equipes de finanças, jurídica e executiva, se concentre exclusivamente na saúde da empresa a longo prazo e menos em atender às exigências do mercado público, que não têm nada a ver com ser uma editora de jogos bem-sucedida.”
A decisão da Devolver Digital funciona como um retrato honesto de um problema estrutural que assombra a indústria.
Fonte: GamesRadar
Fonte: Video games


