
Rosa de Saron (Divulgação)
Prestes a completar 40 anos de história, o Rosa de Saron não vive de retrospectiva. A banda de Campinas acaba de iniciar um novo capítulo com “Rua dos Regressos“, primeiro álbum de inéditas em cinco anos e um trabalho criado para recuperar elementos reconhecíveis de sua trajetória sem repetir fórmulas do passado.
“A gente precisava lançar um álbum que devolvesse o Rosa aos trilhos do nosso trabalho”, afirma o vocalista Bruno Fagliolini. “Precisávamos ser muito Rosa de Saron e, ao mesmo tempo, buscar coisas modernas para estar contextualizados na sonoridade atual.”
Lançado no fim de maio, o disco tem 12 faixas e 49 minutos de duração. O repertório reúne músicas como “Pra Descobrir”, “Casa”, “Bartim(Eu)” e “Mordor”, além da parceria com PG em “Entre as Águas”. A produção é de Ricardo Domingues, profissional ligado a uma fase da discografia do grupo que ganhou projeção nacional na década de 2010.
Formado em 1988 dentro da Renovação Carismática Católica, o Rosa de Saron tem atualmente Bruno Faglioni nos vocais, Eduardo Faro na guitarra, Rogério Feltrin no baixo e Grevão na bateria. Ao longo da carreira, o grupo conquistou discos de ouro e platina e recebeu duas indicações ao Grammy Latino.
Em entrevista à Billboard Brasil, Faglioni e Feltrin explicaram que “Rua dos Regressos” nasceu da necessidade de recolocar a banda em contato com a própria identidade depois de “In Concert”, projeto sinfônico gravado no Theatro Municipal de São Paulo. Também falaram sobre as dificuldades enfrentadas por quem tenta produzir rock novo em um mercado cada vez mais sustentado pelo catálogo.
O rock perdeu espaço ou apenas mudou de lugar?
Para Rogério Feltrin, um dos fundadores da banda, o rock deixou de ocupar uma posição central na cultura popular, mas isso não significa que tenha perdido sua capacidade de mobilização.
“Acho que tudo está mais nichado. O rock se tornou parte de um nicho, mas tem muita coisa de qualidade sendo lançada”, avalia. O baixista acredita que uma parcela do público formado nas décadas de 1970, 1980 e 1990 ainda apresenta resistência a novas bandas e sonoridades.
“Existe aquele discurso de que isso não é rock, de que rock era AC/DC. Acredito que estamos vivendo uma troca de geração. Não acho que o gênero vá voltar como unanimidade, porque o mundo mudou, mas ele ainda tem mercado e engajamento. Estamos passando por uma entressafra.”
O preconceito dos dois lados do rock cristão
Quando o Rosa de Saron surgiu, no fim da década de 1980, guitarras distorcidas e música católica eram vistas como elementos difíceis de conciliar. Para Feltrin, essa resistência diminuiu dentro das igrejas, mas não desapareceu completamente.
“Hoje já se entende o rock como uma linguagem artística entre muitas outras. Dentro da igreja, isso ficou mais tranquilo”, afirma.
O movimento contrário, porém, continua presente. O baixista acredita que parte do público de rock ainda trata a temática religiosa como incompatível com o gênero.
“O rock tem margem para qualquer tipo de discurso. Dizer que a linguagem religiosa não pode ser adotada dentro do estilo é especialmente reacionário”, diz. “Querer colocar o rock dentro de uma caixa inviolável é totalmente contraditório.”
Faglioni aponta que o rótulo também interfere na maneira como os trabalhos são classificados pela indústria. Um disco pode ter guitarras, bateria, baixo e estruturas claramente ligadas ao rock, mas ser colocado automaticamente em categorias religiosas.
“Por mais que seja um álbum de rock, quando ele recebe a etiqueta de música cristã, acaba ficando fora de determinadas categorias. É complicado colocar trabalhos musicalmente tão diferentes no mesmo lugar apenas porque falam de fé.”
A chegada de Bruno Faglioni
Bruno Faglioni assumiu os vocais do Rosa de Saron em 2019. Desde então, participou dos álbuns “Lunação”, de 2020, “Baile das Máscaras”, de 2021, e agora “Rua dos Regressos”, além do projeto ao vivo “In Concert”.
Feltrin avalia que o cantor ampliou o vocabulário musical da banda ao trazer referências de soul, blues e música gospel.
“O Bruno é um grande cantor e tem uma formação técnica muito forte. Ele também trouxe uma coisa mais solar para o Rosa, que sempre teve uma característica mais densa”, diz o baixista. “Isso oxigenou a banda.”
Faglioni reconhece que precisou adaptar sua forma de cantar. Antes de entrar para o grupo, ele não se considerava propriamente um vocalista de rock e tinha forte influência da soul music e de intérpretes da música cristã.
“Foi um trabalho cuidadoso para dosar essas referências e fazer com que fossem absorvidas pela sonoridade do Rosa”, explica. “A entrada de um integrante novo sempre chacoalha as coisas, mas houve uma simbiose. A banda continua sendo o Rosa de Saron, com alguns elementos mais pop e outras possibilidades musicais.”


