Luísa Sonza completa 28 anos neste sábado (18), um dia depois de lançar o videoclipe de “Tropical Paradise”, quarto capítulo audiovisual de seu álbum mais recente. A proximidade entre as datas ajuda a colocar o aniversário dentro de mais uma era cuidadosamente construída pela cantora.
Desde que abandonou a condição de “rainha dos covers” para investir em repertório autoral, Luísa Sonza tem tratado cada álbum como uma forma de reorganizar sua imagem. Mudam os cabelos, as referências visuais e as sonoridades, mas também a maneira como ela transforma relacionamentos, ataques públicos, inseguranças e ambições em narrativa.
O EP homônimo de 2017 e singles como “Boa Menina” e “Braba” funcionam como prólogo desse percurso. A lista começa em “Pandora”, primeiro álbum de estúdio da cantora, e chega a “Brutal Paraíso”, lançado em abril de 2026.
1. ‘Pandora’: a Luísa Sonza que descobre ser múltipla
Em “Pandora”, de 2019, Luísa Sonza ainda tentava responder a uma pergunta básica: que tipo de artista ela pretendia ser? A solução foi não escolher apenas uma resposta.
A capa do disco apresenta diferentes versões da cantora, enquanto as oito faixas transitam por pop, soul, R&B, gospel e música eletrônica. “Garupa”, parceria com Pabllo Vittar, convive com a carga familiar de “Eliane”, dedicada à mãe, e com as mudanças de andamento de “Bomba Relógio”.
A multiplicidade não era apenas um conceito visual. Ao comentar o álbum, Luísa afirmou que seu negócio era “ser multifacetada, é ser várias Luísas”. A persona de “Pandora” é, portanto, a artista em formação, que transforma a dificuldade de encontrar uma identidade única em parte de sua identidade.
Músicas que representam a persona: “Garupa”, “Eliane”, “Bomba Relógio” e “Fazendo Assim”.
2. ‘Doce 22’: a Luísa Sonza que transforma o ataque em narrativa
Se “Pandora” procurava uma identidade, “Doce 22” já sabia contra o que estava reagindo. Lançado em 2021, o disco nasceu durante o período em que Luísa se tornou uma das figuras mais expostas e atacadas das redes sociais brasileiras.
A abertura com “INTERE$$EIRA” sintetiza o procedimento do álbum. Em vez de fugir dos insultos usados contra ela, a cantora os incorpora ao próprio repertório. A ofensa deixa de pertencer a quem a ataca e passa a ser material de composição.
Essa apropriação aparece na estrutura do disco. De um lado, faixas de afirmação, desejo e poder, como “MODO TURBO” e “VIP –”. Do outro, canções como “penhasco.”, “melhor sozinha” e “2000 s2”, nas quais a segurança pública dá lugar ao abandono, à ansiedade e à solidão. O projeto foi apresentado como um retrato das contradições dos 20 e poucos anos, ampliadas pela fama e pelo ódio virtual.
Músicas que representam a persona: “INTERE$$EIRA”, “penhasco.”, “MODO TURBO” e “melhor sozinha”.
3. ‘Escândalo Íntimo’: a Luísa Sonza colocada sob o microscópio
“Escândalo Íntimo”, de 2023, leva a lógica confessional de “Doce 22” ao limite. Se o álbum anterior separava força e vulnerabilidade, o terceiro disco mistura as duas em uma narrativa sobre pesadelos, autossabotagem, desejo, culpa e relações que fracassaram.
Na apresentação do projeto, Luísa Sonza o definiu como “uma autoanálise de um relacionamento abusivo, antes comigo, do que com os outros”. A frase deslocava o centro do álbum: apesar das histórias amorosas, a personagem principal era a própria cantora, observando suas escolhas e padrões.
Musicalmente, ela também buscou uma identidade brasileira mais marcada. “Escândalo Íntimo” mistura pop, música eletrônica, bossa nova, sertanejo, samba e referências a nomes como Rita Lee, Abílio Manoel e Chico Buarque. “Chico” levou essa aproximação com a tradição brasileira às paradas, enquanto “Campo de Morango” e “Principalmente Me Sinto Arrasada” apresentaram imagens de sangue, pesadelo e destruição. O álbum ainda estabeleceu um recorde de estreia no Spotify Brasil.
Músicas que representam a persona: “Campo de Morango”, “Principalmente Me Sinto Arrasada”, “Chico” e “Penhasco2”.
4. ‘Bossa Sempre Nova’: a Luísa Sonza intérprete
Depois da superexposição de “Escândalo Íntimo”, Luísa fez um movimento menos previsível. Em janeiro de 2026, lançou “Bossa Sempre Nova”, álbum colaborativo com Roberto Menescal e Toquinho.
O projeto reúne 14 músicas, entre releituras de clássicos e “Um Pouco de Mim”, composição inédita assinada por Luísa Sonza e Menescal. Em vez de construir um novo diário sentimental, a cantora direcionou a atenção para a interpretação, os arranjos e a história das canções.
Ela própria tratou o trabalho como algo à parte de sua discografia pop e descreveu o surgimento de “uma Luísa mais calma, mais estável”. A intensidade não desaparece, mas deixa de depender do grito, do choque visual ou da revelação biográfica.
Músicas que representam a persona: “Consolação”, “Um Pouco de Mim”, “Nós e o Mar” e “O Barquinho”.
5. ‘Brutal Paraíso’: a Luísa Sonza cética que reivindica a autoria
Lançado em abril de 2026, “Brutal Paraíso” começa com a promessa de um lugar ideal. O som do mar, porém, é interrompido por ruídos, mudanças de estação e batidas mais duras. O paraíso existe apenas como lembrança ou propaganda.
Luísa definiu o trabalho como o oposto de “Bossa Sempre Nova”. Se o projeto anterior olhava para uma ideia segura e utópica de Brasil, o novo disco tenta registrar o mundo de forma mais crua, a partir da perspectiva de uma jovem brasileira.
As 23 faixas misturam bossa nova, funk, pop, rock, reggaeton e música eletrônica. “Fruto do Tempo” responde a “Consolação”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes. “Loira Gelada” inverte a perspectiva de “Louras Geladas”, do RPM. “Tropical Paradise” parte de uma atmosfera bossa-novista antes de chegar ao funk.
O clipe de “Tropical Paradise”, lançado na véspera de seu aniversário, prolonga essa fase ao combinar praia, coreografia, tropicalidade e referências urbanas. É a imagem do paraíso já atravessado pela consciência de que ele não se sustenta por muito tempo.
Músicas que representam a persona: “Fruto do Tempo”, “Loira Gelada”, “Tropical Paradise” e “Brutal Paraíso”.
Afinal, qual é a verdadeira Luísa Sonza?

As cinco personas não se substituem completamente. “Brutal Paraíso” ainda carrega a multiplicidade de “Pandora”, a reação ao julgamento de “Doce 22”, a confissão de “Escândalo Íntimo” e a pesquisa musical de “Bossa Sempre Nova”.
A diferença está na posição que Luísa Sonza ocupa dentro da própria narrativa. No início, ela queria provar que poderia ser uma cantora pop. Depois, passou a responder ao que diziam sobre ela. Em seguida, transformou sua vida íntima em estrutura conceitual, recuou para se afirmar como intérprete e retornou reivindicando maior controle sobre a obra.
Aos 28 anos, o elemento mais constante da carreira de Luísa Sonza é justamente sua recusa em permanecer uma só.


