Tudo mudou com Demon Slayer, mas nem tudo foi para melhor. Uma pergunta ganha força: adaptar apenas mangás de sucesso pode, a longo prazo, prejudicar a indústria dos animes?
A explosão de bilheteria de Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – Castelo Infinito marcou um ponto de virada inquestionável. Embora Your Name, de Makoto Shinkai, tenha sido um pioneiro no sucesso global, foi em 2020, com Demon Slayer – Mugen Train: O Filme, que o fenômeno decolou de vez. O anime deixou definitivamente de ser um nicho para se tornar um gigante que atrai milhões de espectadores em todo o mundo.
Desde então, os estúdios entenderam o recado e passaram a lançar com frequência crescente filmes ou prévias de novas temporadas nos cinemas. Jujutsu Kaisen 0: O Filme, Chainsaw Man – O Filme: Arco da Reze e The First Slam Dunk são exemplos que resultaram em números impressionantes, e a tendência é que esse movimento continue a crescer.
Mas esse é realmente o caminho mais saudável?
Sony Pictures Releasing
Dentro da própria indústria, vozes começam a soar o alarme. Yuichiro Saito, produtor e presidente do Studio Chizu, alerta que a indústria não pode sobreviver só de adaptações e que uma bolha pode estourar. “Depender demais de propriedade intelectual existente não é saudável“, disse Saito durante o Aichi Nagoya International Animation Film Festival (Festival Internacional de Cinema de Animação de Aichi-Nagoya). “Adaptações de mangá são maravilhosas, mas também devemos manter viva a chama da narrativa original, criando histórias do zero com base em nossa própria filosofia.“
O mercado, de fato, teve um crescimento tremendo recentemente, impulsionado por franquias já consolidadas. Em 2025, Castelo Infinito foi um estrondoso sucesso, arrecadando mais de US$ 722 milhões mundialmente. Chainsaw Mane e Jujutsu Kaisen, também adaptações, tiveram desempenho excepcional, em um ano fantástico para os animes nos cinemas. No entanto, Saito faz um contraponto histórico:
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“Antes da pandemia, os filmes originais tinham um desempenho melhor nas bilheterias internacionais do que os baseados em franquias. As obras originais abriram os primeiros mercados, criando um terreno fértil para que os títulos de propriedade intelectual ganhassem maior aceitação no futuro.“
Saito, que colabora frequentemente com o diretor Mamoru Hosoda, tem interesse pessoal no assunto – o Studio Chizu é responsável por originais como Mirai e Belle. Mas sua preocupação parece fundamentada. Observa-se, de forma cada vez mais flagrante, que filmes originais vêm sendo lançados sem o mesmo alarde. Com exceção de nomes consagrados como Hayao Miyazaki ou o próprio Shinkai, está se tornando mais difícil para novas histórias encontrarem espaço nas grandes salas.
Sem espaço para histórias originais?

Toho
Assim, estreias encantadoras como The Colors Within ou The Concierge mal conseguem distribuição adequada, enquanto títulos como O Imaginário e A Corrida dos 100 Metros migram direto para o streaming, sem chance de brilhar na telona. Com a tendência seguindo nessa direção, há um risco real de que, nos próximos anos, os grandes lançamentos de anime se reduzam a prévias de temporada – dois ou três episódios editados e lançados nos cinemas apenas para capitalizar o público cativo.
É compreensível o raciocínio dos estúdios, uma lógica que também afeta a indústria cinematográfica global. Franquias como Marvel ou os clássicos Pixar atraem um público garantido, que já sabe o que gosta. No entanto, ao se perder o elemento de “autor” e essas histórias pessoais e originais, o mundo dos animes pode estar abrindo mão de justamente um dos elementos que mais cativou fãs ao longo das décadas, tornando-se, no limite, apenas mais um produto padronizado para consumo.
Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – Castelo Infinito está disponível no Crunchyroll.
Fonte: Filmes e Séries


