Uma obra-prima mutilada por Hollywood, este filme perdeu sua alma em uma versão americana truncada, traindo a visão de Sergio Leone e marcando para sempre a história do cinema.
Sergio Leone idealizou Era uma Vez na América como uma grande epopeia, um projeto ambicioso destinado a entrar para a história. No entanto, a versão lançada nos EUA sofreu cortes tão drásticos que alteraram profundamente sua essência, deixando o cineasta profundamente decepcionado.
Longe de ser um sucesso comercial em seu lançamento, em 1984, o filme arrecadou apenas US$ 2,5 milhões, bem abaixo de seu orçamento de quase US$ 40 milhões. Essa falha se deveu em grande parte à mutilação da obra, que passou a assombrar Leone para sempre.
Inicialmente, o diretor planejava uma versão de 6 horas, dividida em duas partes, mas acabou apresentando uma de 4 horas. A Warner Bros. e o produtor Arnon Milchan, porém, rejeitaram a proposta. Num esforço para chegar a um acordo, o próprio Leone encurtou algumas cenas, resultando na versão europeia de 3 horas. Mas para os EUA, o estúdio decidiu reduzir tudo para apenas 2 horas e 19 minutos — e ainda reordenou a cronologia da história, deturpando completamente a narrativa original. O resultado foi catastrófico, tanto para a crítica quanto para o público.
“Uma obra esvaziada de alma”
20th Century Fox
No livro Conversation avec Sergio Leone (Conversas com Sergio Leone), de Noël Simsolo, republicado em 2024 pela Capricci, o cineasta reflete sobre o que considera uma sabotagem: “A versão truncada suga a alma da minha obra”, declarou, amargamente. Para ele, a estrutura não linear era essencial para transmitir a mensagem do filme.
Colocar a narrativa em ordem cronológica fez perder o mistério, a atmosfera e a profundidade que buscava. Leone via aquela redução como uma aberração: “Não posso aceitar que me digam que a versão original é longa demais. Ela tem exatamente a duração que deveria ter”, insistia.
O diretor também expressava incompreensão em relação a certas decisões dos produtores, especialmente as de Dino De Laurentiis, outra figura importante do cinema italiano. Durante exibição no Festival de Cannes, De Laurentiis elogiou o filme, mas sugeriu cortar 30 minutos. Leone rebateu na hora: “Ele faz filmes de duas horas que parecem ter quatro, enquanto eu faço filmes de quatro horas que parecem ter duas”. A frase sincera e afiada revela a divergência de visões entre os dois — e explica por que nunca colaboraram.
A recepção e o legado na Europa

20th Century Fox
Já a versão de 3 horas e 49 minutos encontrou seu público na Europa, especialmente na França, onde foi bem recebida pela crítica. Ainda assim, atraiu apenas 1,5 milhão de espectadores, longe dos 15 milhões de Era uma Vez no Oeste, obra-prima anterior de Leone.
Essa edição de 229 minutos foi lançada em Blu-ray em 2014, mas hoje é rara e alcança preços altos. Em 2011, a Cineteca di Bologna (Arquivo de Cinema de Bolonha) anunciou uma restauração de 4 horas e 20 minutos, que até hoje não foi lançada. Enquanto isso, os fãs esperam por uma edição em 4K que permita redescobrir a obra como Leone a idealizou.
Assim, Era uma Vez na América, mesmo ocupando um lugar entre os maiores filmes de todos os tempos, segue vítima do sistema hollywoodiano, que o privou de sua verdadeira forma narrativa e emocional. Sergio Leone nunca deixou de lutar para que sua visão integral fosse conhecida — e o debate sobre as versões do filme ainda alimenta a paixão dos cinéfilos ao redor do mundo.
Relembre a história de Era uma Vez na América
Na década de 20, David Aaronson (Robert De Niro) e Maximillian Bercouicz (James Woods), dois amigos de descendência judaica, crescem juntos cometendo pequenos crimes nas ruas do Lower East Side, Nova York. Gradualmente estes crimes assumem proporções maiores e a Máfia judaica passa a ter tanta força que os amigos do passado se tornam rivais. Esta saga percorre desde seus dias de infância, atravessa o apogeu durante a Lei Seca e retrata o reencontro deles após 35 anos.
Se quiser ver a versão reduzida (contra a qual Leone tanto lutou), ela está disponível no catálogo do Disney+.
Fonte: Filmes e Séries


