A obra de Dias Gomes desafiava a inteligência dos militares e isso não agradou nada o governo.
Ao longo de toda sua história, a Globo produziu mais de 300 novelas – e algumas enfrentaram muita dificuldade para conseguir, finalmente, serem exibidas na TV. Esse é o caso de um dos grandes clássicos da emissora, que foi censurado pela ditadura militar e, anos depois, ganhou uma nova versão.
A proibição de Roque Santeiro
Roque Santeiro foi idealizada por Dias Gomes (1922-1999) com colaboração de Aguinaldo Silva, Marcílio de Moraes e Joaquim Assis, e estava programada para ir ao ar originalmente em 27 de agosto de 1975.
Ela seria a nova novela das oito e a primeira em cores naquele horário. 30 capítulos haviam sido gravados com um elenco estrelado e bem diferente do qual conhecemos hoje: Betty Faria era a protagonista, Porcina; Francisco Cuoco era Roque Santeiro e Lima Duarte, o Sinhozinho Malta.
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“Tínhamos planejado uma mexida no horário das oito da noite. Eu pensava que os melodramas de Janete Clair [1925-1983] deviam ser revistos. Achávamos que era preciso dar uma renovada naquilo. Era preciso levar para as oito o melhor autor das dez, Dias Gomes. Os melodramas de Janete Clair levavam a muitas fantasias, e a crítica político-social do Dias Gomes, mais seca e ferina, dava margem para que fizéssemos um belo trabalho”, afirmou o diretor Daniel Filho no livro Antes que me Esqueçam.
No entanto, a Censura Federal percebeu que a obra tratava-se de uma adaptação de um texto teatral que havia sido vetado anteriormente, O Berço do Herói, escrito por Dias Gomes em 1963.
O autor até tentou enganar os censores para que a sinopse fosse aprovada, mas não deu certo. O governo afirmava que “a novela contém ofensa à moral, à ordem pública e aos bons costumes, bem como achincalhe à Igreja”. Assim, a ditadura militar proibiu que a novela fosse lançada.
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No dia da proibição, Cid Moreira leu no Jornal Nacional um editorial assinado pelo presidente da Rede Globo, Roberto Marinho, anunciando o veto. A decisão gerou comoção entre artistas e equipe da Globo, que protestaram contra. Mas, apesar de tanto barulho, a obra permaneceu censurada até o fim do regime.
Nova versão feita pela Globo
Em meio a comoção, a emissora teve apenas três meses para produzir uma substituta para o horário, e assim nasceu Selva de Pedra (1972), de Janete Clair. Em seguida, veio Pecado Capital (1975), da mesma autora, que teve o elenco e o cenário de Roque Santeiro aproveitados para a realização.

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Foi só em 1985, quando os militares saíram do poder, que a Globo teve a liberação e decidiu regravar a obra de Dias Gomes. Aquela altura, 10 anos depois, muita coisa havia mudado e parte do elenco recusou retornar à produção. José Wilker assumiu a vaga de Francisco Cuoco como Roque, e Regina Duarte ficou com o papel de Porcina, que antes era de Betty Faria. O motivo? Betty não gostava da personagem por achá-la mau-caráter.
Um dos poucos do elenco original que se manteve foi Lima Duarte, que reconhece que, apesar das alterações sofridas na história, Roque Santeiro marcou a volta da liberdade de expressão e tornou-se uma das maiores novelas do país – não à toa foi um sucesso de audiência.
“Quando veio a abertura gradual do Geisel [1907-1996], do Brasil, ‘Agora podemos fazer a novela’. E com essa abertura, com essa lufada de vento saudável que perpassou o Brasil, veio a novela Roque Santeiro. E o povo percebeu: ‘Agora podemos falar, respirar, pesquisar a nós mesmos, saber o que somos, como pensamos, de que jeito agimos, como vamos nos relacionar com a história, o que será desse país daqui pra frente'”, disse em entrevista ao Memória Globo.
“Roque Santeiro foi um deslanchador dessa revolução, na televisão pelo menos, nesse universo recôndito e maravilhoso das telenovelas, da nossa liberdade, do nosso suspirar e respirar, do nosso encontro conosco mesmo. Esse foi o grande sucesso”, finalizou.
Fonte: Filmes e Séries


